quarta-feira, 25 de maio de 2011

Depressão - De frente para o abismo





Qualquer vida é triste. O tempo passa e todo momento feliz é uma perda que podemos recuperar apenas na memória.
Nossos desejos não têm fim, e nos sentimos impotentes quando eles não correspondem às limitações do mundo.
Nossos corpos inevitavelmente entram em decadência e, por fim, todos nós morremos.
Mas a vida também é feliz e, conforme supeamos uma frustração amorosa, a morte de alguém ou um fracasso, logo voltamos à luz, prontos para ver que cada conquista expande nosso mundo.

Só que em alguns casos a tristeza não vai embora e se torna muito maior que o fato que a desencadeou.
E a depressão começa lentamente a agarrar e corroer a vida, como a ferrugem consome a lataria de um carro abandonado.
Paa o depressivo, a vida é estar constantemente à beira de um abismo, tomado pela tortura que rouba o equilíbrio e que
paralisa diante de uma queda iminente. Ele se sente para baixo o tempo todo, inútil, culpado desconcentrado, cansado, sem
prazer para fazer as coisas do dia a dia. O sono fica irregular, o peso cai, e idéias de ou suicídio não saem da cabeça -
segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 15% dos depressivos acabam se matando.
O problema é sério - em 2001 (esse é o dado mais atual), havia 340 milhões de depressivos espalhados por todo o mundo,
dos quais apenas 25% tinham acesso a algum tratamento efetivo. E o transtorno não pára de crescer. Quando chegarmos
a 2030, será a doença mais comum no mundo, segundo a OMS.

Causas:
A depressão é engatilhada por eventos da vida, como alguma perda - a de uma pessoa querida, de uma função, de
uma idéia sobre si e é pior se sofre uma humilhação ou a sensação de estar em uma armadilha. Mas também mudanças positivas podem surpreendentemente desencadear a depressão - como o casamento ou uma promoção no trabalho.

Só que nem sempre passar por uma barra leva a uma depressão. Afinal, ela não tem uma causa única. Na verdade, é uma conjunção de fatores genéticos (se um gêmeo tiver depressão, seu irmão terá 46% de risco), bioquímicos (desiquilíbrio
de neurotransmissores, como serotonina, norepinefrina e dopamina), ambientais ( quando os acontecimentos de uma vida vão mal) e psicoógicos (a história de vida da pessoa). Por isso, o tratamento em geral inclui tanto medicamentos quanto psicoterapia, num pocesso por vezes fustrante, com tentativas e eros até encontar o remédio (e o psicólogo) correto. E é importante que seguí-lo à risca e não abandoná-lo sem orientação médica quando começar a se sentir bem.

O caso do Jornalista Andrew Solomon mostra bem o risco de abandonar o tratamento por conta própria.
Salomon era um exemplo de sucesso. Graduou-se na Universidade de Yale e fez mestrado em Cambridge. Viajou o mundo, escrevia para a revista New Yorker e, quando parou de tomar antidepressivos, decidiu se matar. Como a culpa de traumatizar a família impedia o suicídio,optou pela via indireta. "Não conseguia encontrar uma maneira de provocar câncer, esclerose múltipla e outras doenças fatais, mas sabia
como pegar Aids. Então, decidi fazê-lo, conta em seu livro O Demônio do Meio-Dia, sobre a depressão com a qual apredeu a conviver.

Durante 4 meses, afundou-se em encontros sexuais com estranhos que presumia infectados. Quando marcou seu teste de HIV, teve uma
crise tão forte que voltou aos medicamentos. Por fim, descobriu não ter sido contaminado. Depois de dois meses, a crise passou.
Nunca mais Solomon abandonou seus remédios, e assim conseguiu seguir em frente. "O oposto da depressão não é a felicidade,
mas a vitalidade. E minha vida(...) é vital, mesmo quando triste", escreve.

Como é possível que um transtorno tão prejudicial possa ter resistido à seleção natural e se tornado uma das doenças mais comuns da humanidade?
Evolucionistas apresentam ao menos 3 possibilidades. Uma é a teoria da hierarquia, proposta pelos psiquiatras evolucionistas Anthony Stevens e John Price. Para eles, a depressão garante que animais consigam conviver conformados em sociedade, obedecendo hierarquias.

"O estado de depressão evoluiu-se para promover a aceitação do papel subordinado", escrevem. Assim, quando um animal perde uma disputa a depressão diminui suas aspirações de dominação e evita que tente questionar seu papel secundário - mesmo que ao líder se reserve a vantagem de ter mais comidae mais parceiros sexuais que os demais.

Outra hipótese é a de que nosso cérebro evoluiu menos do que a forma como nós vi diferentementevemos. A sociedade moderna,com suas inúmeras escolhas,decisões e responsabilidades, é simplesmente estressante demais. Afinal, o homem das cavernas não tinha que optar por uma profissão,procurar emprego e trocar de família, de cidade, de grupos sociais. Da vida se podia ter mais certezas e bem menos motivos para se arrepender.

Também existe a hipótese de que a depressão ajuda a encontrar soluções para problemas. É o que propõem Paul Watson e Paul Andrews,da Universidade do Novo México, EUA. Ao concentrar toda a energia para ruminar suas questões, o depressivo leve, pode encontrar alternativas que não passariam por sua cabeça se estivesse feliz. Ao mesmo tempo, consegue das pessoas mais próximas certa benevolência e uma maior disposição para ajudarem-no.
E por que hoje a depressão não para de crescer? É possível especular especular várias razões - desde as mudanças tecnológicas até a crise das religiões.
Mas isso é especular. O que a psicóloga Joan Chiao, da Universidade Northwestern, EUA, fez foi estudar o fenômeno do ponto de vista genético e cultural em 20 países. Sua conclusão aponta para o individualismo.

A prevalência de uma variante do gene transportador de serotonina relacionada à depressão é duas vezes maior nos povos do Leste Asiático -
como chineses e japoneses - do que entre ocidentais. Mas diferentemente do que isso sugeriria, a prevalência da depressão no Ocidente é muito maior do que no Leste Asiático.
A razão, segundo o estudo, é que culturas baseadas na colaboração coletiva como as orientais acabam dando um apoio social a indivíduos geneticamente suscetíveis à depressão. "Issoparece proteger indivíduos vulneráveis de riscos ambientais que serviriam de gatilho para episódios depressivos",conta. Ou seja, é impossível ser feliz sozinho.

Para saber mais: Demônio do Meio-Dia: uma Anatomia da Depressão - Andrew Solomon, Objetiva 2002

Matéria da SuperI nteressante - Edição Especial: Mistérios da Mente - páginas 45, 46e 47 - Edição 290 - Abril de 2011

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